Pios e Rodopios
domingo, 29 de junho de 2014
Ela deita comigo todas as noites. Recosta-se em mim, se aninha e pega no sono quase que instantaneamente. Sua patinha às vezes me acaricia sem querer, e durmo também, ao som de seus grunhidos. Seu pelo escuro, macio e sujo - da poeira, do ar, do chão - me esquenta nessas noites frias. Tenho mais uma semana aqui - uma semana somente - depois eu volto pro depósito. O que guardam lá? Sonhadores. Nós somos aqueles que querem sempre mais. Por isso, aprendemos mais, crescemos mais, nos doamos mais. Lá, ninguém pode ir comigo, nem ela. Eu vou sozinha. Eu fico sozinha, esperando alguém me encontrar, alguém me ver e se ver em mim. Alguém que sonhe como eu e que não me maltrate assim. Alguém que não gaste nosso dinheiro com putas e que me ouça quando eu preciso (e me ajude com a dieta). Eu sou uma criança que mora sozinha num corpo de adulto. Se pelo menos ela fosse comigo tudo seria mais fácil
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Ele estava na garagem, bebendo como gostava de fazer toda vez que alguém vinha visitar a gente. Há algumas horas, corria de lá pra cá, carregando espeto, prato, talher, cerveja. Pediu que eu secasse a louça; eu o fiz. Não entendo o motivo pelo qual fica tão nervoso quando se trata dos amigos. Deve ser porque é a única coisa que lhe resta: a aparência. Não importa se não tem um real no bolso, se o carro estiver brilhando e o cabelo penteado, tá tudo bem. Ele gosta de paparicos. Sai com mulheres décadas mais novas - aprendeu a mandar sms por causa delas. Achamos que ele gasta nosso dinheiro com putas, mas ninguém tem coragem de perguntar. Voltemos para hoje. Perguntei se ele trouxe minha pizza, e disse que não, não lembrou nem de comprar gelo, imagina lembrar que não como carne. Tudo bem, fiz meu miojo - de queijo - e jantei em meio de velhos bebuns. ''Você não come carne?'' Não. ''Mas nem um frango?''. Sempre tem aquele que acha que galinha nasce em árvore. E ele não jantou com a gente. Corria de lá pra cá, mais uma vez, carregando espeto, prato, talher, cerveja. Nenhum boa noite. Nenhuma companhia para hoje.
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